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Editora: 12min
No começo do ano, a conta parecia fechada: com a inflação em queda, Reino Unido, Estados Unidos e zona do euro entrariam num ciclo de cortes de juros. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desfez esse roteiro. O conflito encareceu energia e combustíveis no mundo inteiro, a inflação voltou a subir — e os bancos centrais que vinham cortando agora seguram as taxas ou discutem elevá-las de novo. Em poucos dias, sinais vindos de Londres, de Washington e do mercado de ouro apontaram todos para o mesmo lado.
O que mudou a rota dos juros não foi uma decisão de política econômica, e sim o preço da energia. Depois que a guerra começou, o petróleo disparou com a interrupção do fornecimento na região, recuou quando cessar-fogos foram anunciados e voltou a subir quando Estados Unidos e Irã retomaram os ataques no estreito de Ormuz, passagem marítima por onde escoa parte do petróleo do Oriente Médio. Com as negociações emperradas, o barril chegou ao maior nível em mais de três semanas.
No Reino Unido, esse choque chegou à conta de luz. O teto de preços de gás e eletricidade fixado pelo regulador Ofgem subiu 13% no início de julho e acrescentou £221 por ano à conta da casa típica — o maior aumento de verão em quatro anos. É esse tipo de repasse, e não uma economia superaquecida, que está por trás da inflação atual.
A inflação britânica subiu a 2,9% em julho, a primeira alta do índice desde março. A causa foi a energia: o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como combustíveis e alimentos, ficou parado, e a inflação de serviços até recuou.
O Banco da Inglaterra vinha em ciclo de cortes e levou a taxa básica a 3,75%, o menor patamar em anos. Agora manteve o juro pela quinta reunião seguida e, segundo o Guardian, avalia elevá-lo já no próximo encontro. O governador Andrew Bailey resumiu o dilema: "A inflação caiu mais rápido do que esperávamos, mas o conflito no Oriente Médio continua a significar preços de energia altos e voláteis. Isso vai fazer a inflação subir de novo mais adiante neste ano. Independentemente de como o conflito evoluir, nosso trabalho é garantir que qualquer aumento da inflação seja temporário e que ela volte à meta de 2%."
Nem todo mundo lê os dados assim. Economistas ouvidos pelo Guardian argumentam que o banco pode ignorar o choque de energia, porque o mercado de trabalho fraco impede que ele contamine o resto: o crescimento dos salários desacelerou e as vagas abertas caíram ao menor nível em cinco anos. Ruth Gregory, da consultoria Capital Economics, avalia que a inflação volta à meta no ano que vem.
A ata da reunião de julho do Federal Reserve, o banco central americano, trouxe a frase que mudou a conversa: "Muitos participantes avaliaram que um aperto da política provavelmente seria necessário se a inflação não recuasse." Alguns membros acrescentaram que as condições financeiras podem não estar restritivas o bastante para trazer a inflação de volta à meta.
O comitê decidiu manter os juros por nove votos a três, na mesma faixa em que estão o ano inteiro. Os votos contrários vieram dos presidentes das regionais de Cleveland, Dallas e Minneapolis, que queriam uma alta de um quarto de ponto — segundo a ata, por julgarem que subir agora evitaria uma sequência de altas mais dura e mais custosa depois.
E isso acontece com o emprego esfriando: a criação de vagas fora da agricultura foi negativa em julho, e a taxa de desemprego caiu sobretudo porque menos gente está procurando trabalho. Ainda assim, dirigentes do Fed em sua maioria têm dito que estão mais preocupados com a inflação do que com o mercado de trabalho. O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, pressionado por Donald Trump a cortar de forma mais agressiva, tem sinalizado paciência. Depois dos últimos dados, o mercado deixou de esperar alta em setembro e passou a projetá-la para dezembro.
A zona do euro deu o passo que os outros dois ainda discutem. O Banco Central Europeu, que vinha cortando, elevou a taxa em junho, de 2% para 2,25% — a primeira alta em quase três anos —, em reação direta à guerra no Irã. Manteve o nível em julho, e economistas projetam novo aumento em setembro, quando os efeitos do conflito terminarem de chegar à economia europeia. Vale a comparação: Estados Unidos e zona do euro trabalham com juros mais baixos que os do Reino Unido, mas os três responderam ao mesmo choque.
O medo de inflação aparece nos preços antes de aparecer nas atas. O ouro, que investidores costumam usar como proteção contra a alta de preços, saltou mais de 4% em um único dia e chegou ao maior nível desde o começo de junho, antes de estabilizar com a realização de lucros. O analista Jim Wyckoff, da American Gold Exchange, atribuiu o movimento seguinte à combinação de uma ata do Fed lida como dura com o petróleo mais caro, que reavivaram a preocupação com a inflação.
Ao mesmo tempo, uma onda de venda de títulos públicos varreu os principais mercados. No Reino Unido, o juro pago pelos papéis do governo com prazo de dez anos chegou a 5,05% — o que, se persistir, encarece a conta de juros do Tesouro britânico justamente quando o chanceler do Tesouro, John Healey, prepara o orçamento de outubro.
No Reino Unido, a maior parte dos financiamentos imobiliários tem taxa fixa, e é na renovação que a mudança aparece. A taxa média de um contrato novo de dois anos passou de 4,83% no começo de março para 5,62%, segundo o serviço de informações financeiras Moneyfacts. E cerca de 800 mil financiamentos contratados a juros de 3% ou menos vencem, em média, a cada ano até o fim de 2027 — quem sai desses contratos encontra um custo bem mais alto.
Do outro lado, quem poupa deixa de ganhar com cortes que não vêm, mas convive com a inflação corroendo o rendimento. E a pressão nas contas domésticas deve continuar: o teto de energia é revisto de novo em outubro, e a redução de imposto sobre a conta de luz anunciada pelo primeiro-ministro Andy Burnham, de £45 por ano em média, corre o risco de ser engolida pelo aumento seguinte.
Três marcações de calendário resolvem boa parte da dúvida. A primeira é a próxima reunião do Banco da Inglaterra, que já indicou avaliar uma alta — seria a inversão de um ciclo de cortes que durou dois anos. A segunda é a revisão do teto de energia britânico em outubro: a consultoria Cornwall Insight prevê aumento de 4%, o que levaria a conta média ao maior valor em três anos e empurraria a inflação de lá para cima outra vez. A terceira é o Fed: operadores já apostam em manutenção na reunião de setembro e jogaram a expectativa de alta para dezembro, mas a ata mostrou que há dirigentes dispostos a antecipar se a inflação não ceder.
Se você acompanha o mercado britânico e tem contrato de taxa fixa perto de vencer, a simulação do novo custo é uma conta a fazer agora, não na renovação: as médias de dois e de cinco anos subiram desde março. Para quem tem exposição a ouro ou a títulos longos, o termômetro que antecede tudo isso é o petróleo — enquanto as negociações sobre o Irã seguirem paradas, é ele que decide se os bancos centrais sobem, seguram ou finalmente voltam a cortar. Vale guardar a leitura de James Smith, economista-chefe da Resolution Foundation: "A boa notícia é que as pressões subjacentes continuam cedendo, com a inflação de serviços em queda. A má é que essa nova onda de inflação é movida por acontecimentos no Oriente Médio que estão, em larga medida, fora do controle do governo."
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